terça-feira, 27 de setembro de 2011

Edir Macedo: um homem que se perdeu no caminho!

   

Depois das declarações do bispo Edir Macedo sobre os pentecostais, acho que vale a pena postar o artigo científico que escrevi em 2009: um estudo sobre a religião evangélica na televisão brasileira. Durante as minhas pesquisas descobri que há muito tempo, o bispo deixou de ser um homem de Deus. É com pesar que falo isso, pois foi muito o que Nosso Maravilhoso Deus deu pra ele. E quando voltar, o Dono da seara,  tudo lhe será cobrado. No meu trabalho ficaram marcadas as palavras de um ex-companheiro de Macedo. -  Do que ele era, quando a igreja (se referindo a Universal) começou, não sobrou nada!

  Agora, polêmicas como essas, só me fazem lembrar da volta do Mestre. Nos últimos dias, os santos ficarão cada vez mais santos e os ímpios cada vez mais ímpios. Um muro intransponível será construído separando ovelhas e bodes. Não será assim? E os acertos não vão começar pela igreja? Será que Jesus já não está separando o joio do trigo? Será que a partir de agora não vamos ver declarações até piores do que a do bispo que aprova o aborto, a bebida, a rebeldia, a promiscuidade? Só o tempo dirá, mas vale lembrar que o nosso lugar seguro é debaixo das asas do Senhor, nos altos lugares. Ali ninguém pode nos tocar com falsas teologias. Afinal, não estamos e nunca estaremos sem Pastor!  Jesus prometeu que jamais nos abandonaria.



UM OLHAR SOBRE O MUNDO EVANGÉLICO NA TV BRASILEIRA

                                                                      Por Marialda Barreto Costa[1]
RESUMO:
Este artigo busca evidenciar por meio de uma pesquisa bibliográfica como são produzidas as programações evangélicas na televisão brasileira. Para tanto, analisam-se as características das principais denominações presentes na mídia nos dias atuais. As igrejas evangélicas são evangelizadoras por natureza, por isso, os líderes enxergaram nos meios de comunicação, uma maneira de divulgar suas doutrinas de forma rápida e eficaz. O objetivo desta pesquisa é entender a relação estabelecida entre o emissor e receptor diante de um canal com mensagens especializadas (evangélica) diferentes do meio secular das emissoras tradicionais. Contudo percebe - se a importância de compreender como se dá essa relação mídia e religião.

Palavras-chave: Evangélicos; televisão; características

INTRODUÇÃO 
O interesse pelo tema religião surgiu diante das muitas discussões polêmicas que pairam sobre o assunto. Ora na esfera acadêmica, ora nos meios de comunicação de massa, as religiões que divulgam a fé principalmente por meio de programas de televisão sempre despertaram a curiosidade da sociedade devido a ascensão desse segmento religioso na TV. O presente estudo feito por meio de pesquisas bibliográficas pretende discutir esse mercado religioso que é entendido como um apelo mercadológico que ultrapassou as fronteiras dos templos e chegou aos programas de televisão (CUNHA, 2007). Nessa narrativa será feito um levantamento das características dos principais programas religiosos na televisão brasileira na contemporaneidade. Serão identificadas as semelhanças e diferenças desses programas, o comportamento desses líderes religiosos no vídeo, a estética e o discurso religioso usado por eles para arrebanhar fiéis. Ou seja, a idéia é procurar entender como é feita a comunicação religiosa na TV. Com este trabalho, sequer ainda, explicar o fenômeno do crescimento das igrejas evangélicas no Brasil, principalmente das denominações que usam a televisão para divulgar a sua mensagem o que direcionou para a verificação de como a questão mercantil é tratada nesses programas evangélicos.
Discutir religião na TV também é importante porque a televisão, como um dos principais meios de comunicação de massa, segundo Cunha (2007) se tornou uma mediadora importante de parte significativa das relações sociais, é capaz de influenciar comportamentos e ditar a rotina de uma sociedade.

A relação emissor – receptor diante dos programas evangélicos na TV           

Visionários, os teleevangelistas já estavam na televisão em 1940, quando a TV foi implantada nos Estados Unidos trazendo ferramentas que os líderes religiosos queriam e precisavam para divulgar a sua mensagem tais como o poder de informar, entreter e influenciar. Segundo Morin (2001) foi nessa época que a televisão assumiu o papel mais valorativo na vida do indivíduo, começando a fazer parte da família, integrando os lares como uma pessoa. E são essas definições que fazem da televisão um meio poderoso e segundo o mesmo autor, é a TV a responsável por grandes mudanças na história do homem.

A TV foi a mais importante revolução virtual: tem as imagens que o rádio não possui e é capaz de fixar hábitos na rotina das pessoas, ao contrário da Internet. Como a porta na caverna de Platão, a TV é o contato com o ideal, com o inalcançável, com o indireto. Senta-se em família diante dela como os primitivos se sentavam ao redor da fogueira (PEREIRA JÚNIOR, 2002. p.13) . 


Sendo assim, a mídia se reflete diretamente na vida do cidadão e influencia na sua cultura. As notícias, as informações, o caráter de prestação de serviço e a função de entretenimento assumida pelos meios de comunicação tornam as pessoas dependentes deles. E não só pessoas, mas também instituições como as igrejas, sejam evangélicas ou não. Numa análise feita sobre essa dependência, Gómez (2005) defende que o telespectador não assume necessariamente um papel de receptor passivo. O autor conclui que o público não pode ser visto como um objeto, mas como um sujeito que vai se formando gradativamente.

Assumir o telespectador como sujeito e não só como objeto frente à TV supõe, em primeiro lugar, entendê-lo como um ente em situação e, portanto, condicionado individual e coletivamente, que se vai constituindo como tal de muitas maneiras e se vai também diferenciando como resultado da sua particular interação com a TV e, sobretudo, das diferentes mediações que entram em jogo no processo de recepção. É nesse sentido que o público da TV não nasce, mas se faz (GOMÉZ, 2005, p.28).


            O telespectador sofre influência de mediações cognitivas, que provém de suas próprias capacidades, sua cultura e sua genética. Há uma união, entre aquilo que o telespectador assiste e suas crenças, valores e outras informações previamente assimiladas em sua mente. (GÓMEZ, 2005).
            A definição de Gómez ajuda a entender a adesão do fiel seguidor das igrejas evangélicas. Alves faz uma comparação interessante daqueles que buscam na crença uma resposta para seus conflitos como a cura física ou espiritual. Compara religiões como uma mesa de banquetes preparada.

Tudo está preparado e há desde os pratos rigorosamente destinados a dietas vegetarianas até as gorduras chamuscadas nas brasas para aqueles que gostam de carne... E os fiéis se aproximam cada qual com o seu pratinho e escolhem (1982, p.10-11).


O autor vai longe no seu pensamento ao comparar as pessoas a lobos e ovelhas e explica que cada um escolhe as idéias, ou seja, o tipo de crença que agrada aos seus paladares e menos ofendem aos seus estômagos. Para ele, cada um escolhe a crença a partir do que é. Ou seja, o seguidor de uma crença está longe de ser passivo.
            Mesmo não sendo passivo, o receptor acaba sendo induzido pelas mensagens veiculadas. Segundo Kelner (2001) quando se analisa os discursos, não se pode deixar de destacar que toda mensagem passada pelas empresas midiáticas não são puras, mas sim, mensagens que vem carregadas de intenções e interesses, sejam esses norteados pelo ideal da empresa ou pela subjetividade do produtor.

Os textos da cultura da mídia não são simples veículos de uma ideologia dominante nem entretenimento puro e inocente. Ao contrário, são produções complexas que incorporam discursos sociais e políticos cuja análise e interpretação exigem métodos de leitura e crítica capazes de articular sua inserção na economia política, nas relações sociais e no meio político em que são criados, veiculados e recebidos (KELNER, 2001. p.13).


E o recurso das imagens colabora ainda mais para formar a opinião do receptor já que a televisão apresenta aos telespectadores a mensagem acrescentada de imagens e também de sons ambiente. Um conjunto de efeitos que só as palavras dos jornais ou o áudio do rádio não conseguem alcançar. Isso pode ajudar a explicar o pioneirismo dos protestantes norte-americanos na TV. A princípio, eles só conseguiram esse espaço porque havia uma necessidade de manter a emissora no ar com programações durante todo o dia, mas com a popularização da televisão, os teleevangelistas perderam esse meio de evangelização e a partir daí buscaram concessões e fundaram as próprias emissoras. Eles visavam o poder de influência da televisão para conquistar novos adeptos e também manter os já evangélicos sempre firmes à sua fé. No Brasil, os líderes das igrejas evangélicas investiram e ainda investem em programas de televisão. Embora o número dessa linha cristã na contemporaneidade pareça infinitamente superior às de outras religiões, sabe-se que não são somente os evangélicos que buscam a TV para divulgação de suas mensagens religiosas numa tentativa de legitimar suas idéias.  A igreja católica também conta com cinco emissoras próprias. [1]
            E esse crescimento dessas religiões pela mídia mostra a inquietação que o assunto impulsiona. Existe uma busca pelo entendimento dos efeitos da comunicação religiosa na sociedade pois, a história mostra que a religião tem um caráter ambivalente.


Ela se presta a objetivos opostos, tudo dependendo daqueles que manipulam os símbolos sagrados. Ela pode ser usada para iluminar ou cegar. Para fazer voar ou paralisar. Para dar coragem ou atemorizar. Para libertar ou escravizar (ALVES, 1984a, p.106).


Alves (1984a) explica que para Durkheim não existe religião falsa porque ela é uma instituição e nenhuma instituição pode ser edificada sobre um erro ou uma mentira. Durkheim defende a religião como o centro da sociedade e afirma que não se pode imaginar uma sociedade totalmente profana e secularizada. Alves aponta ainda que é do filósofo a idéia de que a religião pode transformar, mas nunca desaparecer. Elas apenas se renovam ou se reinventam. “Os velhos deuses já estão avançados em anos ou já morreram, e outros ainda não nasceram” (Durkheim citado por Alves, 1984b, p.66).   
Para definir e caracterizar o protestantismo dos nossos dias, Alves (1982) afirma que pouco adianta olhar para o passado, afinal, quatro séculos se passaram desde que na Alemanha Martinho Lutero afixou as suas noventa e cinco teses na Igreja de Todos os Santos, Wittenberg.

Na verdade, desde o início o protestantismo teve várias faces. Longe de ser um todo unificado, foi ele mais um conjunto de diferentes processos de institucionalização, de teologias que muitas vezes se chocavam, de aspirações espirituais contraditórias. Frequentemente as discordâncias se transformaram em amargos e mesmo sangrentos conflitos (1982, p.57).


Uma das características fortes do protestantismo para Alves (1982) é o individualismo que já traz em si “sementes da desintegração” que geram igrejas, seitas, grupos que se multiplicam, sem um sentido de unidade orgânica.
Mendonça (1997) critica o protestantismo quando diz que o individualismo característico da religião produziu pessoas intelectuais, mas inseguras no interior de sua própria autonomia. Segundo o autor, a religião produziu pessoas livres, mas ansiosas, necessitadas de abrir seus próprios caminhos no dia-a-dia de suas vidas. Para ele, as igrejas protestantes tradicionais esgotaram-se em si mesmas. O autor também compartilha do pensamento de Alves (1982) para quem o protestantismo atual não é mais o de Martinho Lutero e de João Calvino. As doutrinas de salvação anticatólicas foram substituídas por um protestantismo moderno composto por diversidade de convicções e comunidades religiosas que convivem mais ao lado das outras. “O velho protestantismo substituíra a autoridade dos bispos e papas pela autoridade e força salvadora da bíblia” (MENDONÇA, 1997, p.115). Ou seja, enquanto a verdade católica estava firmada em homens e em imagens, os protestantes usam a bíblia como única arma de fé para atrair adeptos. Isto pode ser observado até nos dias de hoje. No programa “Show da Fé” do missionário R.R. Soares (comentaremos mais sobre esse programa posteriormente) nota-se uma preocupação do evangelista em sempre legitimar a sua palavra apontando os textos  bíblicos.
Para compreender o protestantismo brasileiro como ele é hoje, é preciso ter em mente as experiências traumáticas pelas quais passou, tanto após a sua implantação pelos missionários no século XIX, quanto pelo século XX adentro. A sociedade definida como católico-romana não aceitou os protestantes e estes foram “perseguidos, estigmatizados, humilhados. Proibidos por lei de construírem templos, construíam casas de oração. Muitas delas foram apedrejadas ou queimadas” (ALVES, 1982, P.61). Todos esses conflitos acabaram provocando uma oposição forte contra o catolicismo. O que segundo Alves (1982) mostra uma outra característica do protestantismo: o anti-ecumenismo, que no século XX começou a ser derrubado não em relação ao catolicismo, mas entre as denominações protestantes. “Percebeu-se, então, que talvez o maior obstáculo à conversão das pessoas seriam as próprias divisões da igreja. Como anunciar a reconciliação se os próprios cristãos não conseguiram viver e trabalhar juntos?” (ALVES,1982, p.63) Dessa consciência missionária do escândalo, das divisões, emergiu então a consciência ecumênica do século XX quando se criou o Conselho Mundial das Igrejas, em Amsterdam, em 1948.[2]
Mas foi um outro movimento que acabou influenciando a nomenclatura dada hoje aos protestantes no Brasil. Quando os missionários norte-americanos chegaram por aqui no século XIX precisavam encontrar um nome que marcasse quem não era católico. Foi escolhida então, a expressão “crente em nosso Senhor Jesus Cristo” que se abreviou para “crente”, nome que identificava o convertido à mensagem do protestantismo. Nos Estados Unidos, os missionários já se denominavam evangélicos (adeptos do conservadorismo protestante, eles desejavam firmar sua fé no Evangelho e não na ciência.). E foram eles que criaram no século XVIII, o movimento das Alianças Evangélicas.  Movimento que chegou ao Brasil já no século XX e o termo “crente” usado tão pejorativamente por aqui foi trocado por “evangélico” já que muitas denominações acrescentaram o nome às suas igrejas. (CUNHA, 2007, p.13)`

OS EVANGÉLICOS E A MÍDIA

Um dos princípios básicos da fé evangélica é a preocupação com a divulgação de sua mensagem. Essa é tida como a principal característica do evangélico e é um dos facilitares que contribuíram para o estreitamento entre essa linha cristã e a mídia nos últimos quarenta anos. Ajudaram ainda nesta relação, a popularização da televisão já que cresceu o número de brasileiros que adquiriram um televisor, e a substituição dos programas religiosos importados por programas nacionais na década de 1970. Isto porque até esta data, a programação televisa evangélica era de programas de teleevangelistas norteamericanos que pouco conseguiram no Brasil, tendo em vista que apresentaram programas culturalmente americanos. Ou seja, não adaptaram a programação à nossa realidade, o que não agradou o público brasileiro. Eles saíram do ar e entraram os teleevangelistas brasileiros como o missionário R.R. Soares por exemplo. O que a partir daí, gerou um crescimento do número dos evangélicos no país proporcionando ainda mais a busca pelas denominações a meios de comunicação. Não só televisão, mas emissoras de rádio também. “o fim do regime militar que também gerou uma abertura cultural religiosa e a receptividade da TV em receber este tipo de programa colaboraram ainda mais para essa relação mídia e evangélicos” (SANTANA, 2005, 54-57).
Como um dos principais meios de comunicação a televisão, segundo Cunha (2007) se tornou uma mediadora importante de parte significativa das relações sociais. E os teleevangelistas aproveitam essa característica para lançar modismos na sua programação. Uma delas: o jeito de ser gospel. No mundo evangélico, o que caracterizam a música, consumo e entretenimento? A pergunta é de Cunha (2007). Para a autora, música, mídia e consumo aliados ao entretenimento formam o gospel como uma expressão cultural. Cunha (2007) afirma que seu estudo feito em feiras cristãs, programas de TV e de rádio, apontou para o fato de que a expressão gospel revela uma característica do novo ser evangélico.
Num levantamento feito pela autora no Brasil, nos últimos vinte anos, os evangélicos emergiram com força por causa do movimento gospel.  Nesse movimento pode-se ver claramente a relação entre a mídia e o mercado religioso que é entendido como um apelo mercadológico que ultrapassou as fronteiras dos templos e chegou aos programas de TV. Identifica-se neste mundo religioso além do “jeito de ser gospel” todo um universo de consumo exclusivo para o crente que vai desde as músicas até as roupas. Ou seja, o uso da mídia, a lógica de mercado e o entretenimento indicam que o gospel não se restringe a um movimento musical e significa um mundo cultural religioso, um modo de ser do evangélico, com efeitos na prática e no comportamento cotidiano.
A Igreja Renascer em Cristo de propriedade dos seus fundadores, apóstolo Estevam Hernandes e Bispa Sônia Hernandes, é a responsável pela explosão gospel no Brasil na década de 1990. A igreja fundada quatro anos antes em São Paulo utilizando dos meios de comunicação principalmente a Rede Gospel da qual tem a concessão começou a disseminar a marca Gospel da qual detém a patente.
O casal Hernandes apostou nos ritmos diferentes inclusive o rock e popularizou a música religiosa evangélica iniciada nos anos de 1950 nos Estados Unidos.  Os jovens receberam apoio, criaram as bandas e lançaram cds e dvds (CUNHA, 2007).[3] A TV ancora ao vivo, os megaeventos produzidos pela igreja como o “SOS da Vida” e a “A Marcha para Jesus[4]”, eventos que além de firmar a marca são usados para divulgar as músicas produzidas pelas bandas. A emissora também divulga dentre outros produtos camisas, bonés e livros escritos pelos bispos, pastores e músicos da igreja.


A Renascer centra seu esforço proselitista na mídia eletrônica, terreno que estreou em 1990, quando alugou a rádio Imprensa 102,5 FM(SP). Ingressou na TV no final de 1992, com um programa semanal.  Logo passou a veicular quatro programas na Rede Manchete: Tribo Gospel, Clip Gospel, De Bem com a vida e Espaço Renascer. No final de 1996, tornou-se sócia do canal 53 UHF, controlando a programação da TV Gospel, cujo sinal é captado pelas tevês pagas Multicanal, NET e TVA. (MARIAN0, 1999, p.103).


            O empreendimento do casal Hernandes deu certo e além de atrair jovens do meio secular também conquistou adeptos de outras igrejas evangélicas. Cerca de um quarto dos fiéís da Renascer são oriundos de outras denominações. Isto acontece porque além da presença marcante na mídia, a igreja não segue usos e costumes, comuns a outras religiões desta mesma linha cristã. Na renascer, as mulheres podem ocupar altos cargos na igreja como bispa por exemplo. São sempre bem vestidas, usam maquiagem e cortam o cabelo de acordo com a moda.

Quem inventou essa história de que para agradar a Deus, as pessoas têm que ser tristes, pobres e mal vestidas? Não aceitam que a gente tenha ganho a BMW na rifa, toque rock, seja feliz. Não aceitam nossa liberdade de falar da bíblia sem ser ET. A gente aceita todos como são. Você pode usar mini-blusa, colocar 50 brincos na orelha, pintar o cabelo de azul, usar calça esburacada. Sem acusação. (Bispa Sônia Hernandes em entrevista à Veja citada por Mariano, 1999 p. 211).


Na maioria das igrejas mais tradicionais isto não acontece. As mulheres são relegadas a segundo plano quando se trata de ministrar na frente da igreja. Não podem abusar da maquiagem, nem jóias ou acessórios berrantes. Roupas mais cavadas ou calças compridas também são proibidas em igrejas como a Cristã do Brasil e a Deus e Deus é Amor. Com essas características, a Renascer conseguiu fechar o ano de 1998 com mais de 300 templos. Já estava em metade dos Estados brasileiros e no exterior em cinco países: Uruguai, Estados Unidos, Espanha, França e Portugal. Observa-se portanto, que o consumo ligado ao entretenimento  transforma os evangélicos “em segmento de mercado, sócios de Deus e membros da sociedade sintonizados com a lógica hegemônica do capitalismo globalizado” (CUNHA, 2007, p.12). 
Nos anos de 1960 e 1980, os programas religiosos na mídia brasileira eram centrados em um personagem carismático, portador de promessas de cura e salvação: os tele-rádioevangelistas. Entretanto, nos dias atuais, essa figura praticamente não existe e os programas são comandados por apresentadores renomados no meio evangélico.  O estilo segue os mesmos dos programas exibidos pelo meio secular: formato e temática trabalhados de acordo com o público alvo. Apresentadores e convidados quase sempre são ligados ao mundo da música (CUNHA,2007).
O único personagem remanescente dos anos de 1970, o tele-evangelista R.R. Soares, transformou o que tinha o formato de um culto religioso num programa de auditório. Para Cunha (2007) o programa do pastor, denominado “Show da Fé” abriu espaço para apresentações musicais, venda de livros, cds, dvds produzidos por uma gravadora e editora da igreja, o que revela que a emissora RIT – Rede Internacional de Televisão pertencente a Igreja Internacional da Graça de Deus, da qual R.R. Soares é o fundador, também acompanha a tendência gospel. A programação das redes evangélicas divulga os locais de reuniões “cultos” apenas como um detalhe. O restante da programação como, sermões, debates, estudos e sessões de oração visam sempre a conquista do público e dos já consumidores dos produtos veiculados. Assim, os meios de comunicação se tornaram:
Mediadores de uma comunidade de consumidores em que a vinculação religiosa já não é o que mais importa e sim uma vivência religiosa e o consumo de bens e de cultura que possibilitem a aproximação de Deus e entretenimento “sadio” (CUNHA, 2007, p.146).


Como distinguir a linguagem religiosa de todas as outras linguagens? Alves (1982) explica que o discurso religioso é uma extensão simbólica do corpo do crente. Segundo ele, esta é a razão porque quando a sua linguagem é ferida, é como se seu corpo tivesse sido atacado. A linguagem religiosa dá nomes às coisas, organiza a experiência, mapeia os caminhos, indica as zonas obrigatórias, as permitidas, as proibidas, diz o que deve ser feito e o que não pode ser feito.

UM POUCO DE HISTÓRIA

Para entender o crescimento do mercado evangélico na televisão brasileira é necessário conhecer a trajetória histórica dessa categoria religiosa relatada por Mafra (2001).  A autora descreve que o primeiro missionário que chegou ao Brasil em 1837 foi um metodista americano conhecido como Daniel Parish. Ele viajou pelo Brasil como correspondente da Sociedade Bíblica Americana, mas antes disso, por volta de 1824,  já existiam luteranos no país. Eram os emigrantes alemães que se fixaram no Rio Grande do Sul. No entanto, não foi nem uma igreja luterana e nem uma igreja metodista a primeira a ser implantada no Brasil. Um casal de missionários americanos Robert e Sara Kalley foram os fundadores da primeira igreja protestante no país: A Igreja Evangélica Brasileira implantada em Petrópolis, no Rio de Janeiro, em 1855 (MAFRA, 2001). 
Quatro anos depois, um missionário também americano desembarca no Rio de Janeiro onde fundou a primeira igreja presbiteriana. Ashbel Green Simonton um jovem rapaz, com ousadia, divulgava a mensagem religiosa, sempre defendendo a teologia do Destino Manifesto dos presbiterianos norte-americanos. Uma teologia que, de acordo com Mafra (2001), via o Brasil como uma terra de idólatras e pagãos.
Os presbiterianos buscavam atrair os fiéis reconhecendo a dignidade dos trabalhadores. Todos tinham o mesmo direito nos cultos que as famílias abastadas, o que não acontecia nas celebrações católicas onde trabalhadores livres, entre eles alguns ex-escravos eram obrigados a assistir a missa em pé. Uma outra forma de arrebanhar fiéis usada pelos presbiterianos era o investimento em educação, a escola dominical aos domingos, muitas vezes, foi transformada em momentos de alfabetização, o que atraiu cada vez mais os fiéis. “O acesso à escrita também foi um traço sedutor para aqueles trabalhadores urbanos” (MAFRA, 2001, p.22).
 Depois vieram os batistas que chegaram a Salvador, na Bahia, em 1882 adotando estratégias diferentes dos presbiterianos.  A educação é deixada em segundo plano, mas o batismo por aspersão dos presbiterianos é criticado e no seu lugar o batismo por imersão é pregado como uma doutrina. Eles ainda trabalhavam um estilo imediato e massivo de propaganda religiosa ensinando que cada novo membro era um evangelista, o que gerou um aumento no número de conversões. “Em 1889 existiam oito igrejas batistas no Brasil, com 312 membros; em 1895 o número de igrejas dobrava para dezesseis, tanto quanto o número de membros, que atingiu 784” (MAFRA, 2001, p.27).
            Uma outra característica da denominação batista que se instalou no país foi o grande número de cismas, exclusões e expulsões dos fiéis que não seguiam a doutrina. O que permitiu, a criação da maior igreja pentecostal do Brasil: a Assembléia de Deus, no Belém do Pará, no dia 18 de junho de 1911.  Os fundadores: dois missionários batistas que vieram da Suécia. Embora europeus, ambos converteram-se ao pentecostalismo nos Estados Unidos, de onde vieram para evangelizar os brasileiros. Mas, um ano antes, em 1910, já tinha sido criada uma outra denominação pentecostal, em São Paulo, por um italiano, a Congregação Cristã do Brasil. Uma doutrina onde imperava a oração forte praticamente entre gritos e em “línguas estranhas” e por isso mesmo, foi considerada na época pelos batistas, como seita e não uma igreja evangélica (MAFRA, 2001).
            Com o passar dos anos, a Congregação Cristã, além de permanecer completamente isolada das demais igrejas e organizações pentecostais, manteve-se mais apegada a certos traços sectários, enquanto a Assembléia de Deus mostrou, sobretudo nas duas últimas décadas, maior disposição para adaptar-se a mudanças.
            O século XXI chegou e com ele, o que já se visionava no início do protestantismo implantado no Brasil, um grande número de igrejas evangélicas. E os números mostram que as igrejas tradicionais ou históricas perderam espaço para as ditas denominações pentecostais e neopentecostais. Entre elas: Universal do Reino de Deus, Igreja Renascer em Cristo e Igreja Internacional da Graça de Deus. De acordo com censo demográfico divulgado em 1991 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE - as igrejas tradicionais contavam neste mesmo ano com  quatro milhões trezentos e oitenta e oito mil duzentos e oitenta e quatro membros contra oito milhões, cento e setenta e nove mil e setecentos e oito membros dos pentecostais (MAFRA, 2001).
 Em 2000, nove anos depois, os números do Censo/IBGE mostravam um crescimento ainda maior no Brasil. Se em 1991, os evangélicos eram oito por cento da população brasileira, em 2000 passaram a representar vinte por cento. O que aconteceu? Os pentecostais chegaram mudando a forma de evangelizar e ainda investiram em tecnologia para divulgar a mensagem do evangelho (CUNHA, 2007).
            Cabe aqui fazer uma definição das denominações “protestantes tradicionais”, “pentecostais” e “neopentecostais”. Mendonça (1997) observa que as igrejas tradicionais conhecidas como históricas, entre elas, as denominações batistas, presbiterianas e metodistas têm como base de fé, a busca da conversão das pessoas à sua religião e se apoiam na regeneração, no novo nascimento, ou seja  a salvação individual. Eles também defendem “as missões”, que se baseiam no ato de enviar pastores e evangelistas para outras regiões do país e do mundo. Os cultos são feitos dentro de uma liturgia de ordem com orações e cânticos. Já os pentecostais têm como identidade o batismo com o Espírito Santo e a glossalalia (línguas estranhas). Suas celebrações são barulhentas e não há regras determinadas.   Para o pentecostal, o dono do culto é o Espírito Santo que dita o que vai ser feito.
            Já o neopentecostalismo teve início na segunda metade dos anos de 1970.  Cresceu, ganhou visibilidade e se fortaleceu no decorrer das décadas. Duas igrejas foram fundadas no Rio de Janeiro: A Universal do Reino de Deus em 1977 e a Internacional da Graça de Deus em 1980. Em Goiânia, surge em 1976, a Comunidade Evangélica Sara Nossa Terra e em São Paulo, em 1986, a Igreja Apostólica Renascer em Cristo. Todas fundadas por pastores brasileiros e são hoje as principais igrejas neopentecostais do país. No plano teológico, caracterizam-se por enfatizar a guerra espiritual contra o Diabo, a Teologia da Prosperidade[5] e ainda por rejeitar usos e costumes de santidade pentecostais como, por exemplo, a proibição do uso de jóias, maquiagem e saias e vestidos curtos, no caso das mulheres (MENDONÇA, 1997).
Um pouco de história sobre a Universal do Reino de Deus

É importante abrir um espaço aqui para comentar sobre a Igreja Universal do Reino de Deus - IURD - tendo em vista que essa denominação conseguiu em dezoito anos ser a primeira igreja a possuir uma emissora comercial.  A Rede Record de Televisão foi adquirida no ano de 1989. Numa denúncia recente feita pelo Ministério Público de São Paulo foi levantado o patrimônio construído pela Igreja Universal em seus 32 anos de existência. Ele seria composto por 23 emissoras de TV e 42 emissoras de rádio, quatro firmas de participações, uma agência de turismo, uma imobiliária, uma empresa de seguro de saúde, duas gráficas, uma gravadora, uma produtora de vídeos, uma construtora, uma fábrica de móveis e duas financeiras. A igreja teria ainda uma empresa de táxi aéreo de nome Alliance Jet, que possui três aviões, um deles adquirido em 2007 por US$ 28 milhões ( Folha de São Paulo citada pelo site Cabeça de Guia. A opção inteligente. Postado no dia 11/08/2009. Acesso 14/09/2009 ).
A história da IURD começou em 1977. Antes disso, o seu líder atual bispo Edir Macedo congregava há doze anos na Igreja Nova Vida fundada em 1960. Ao lado dele, Romildo Ribeiro Soares, hoje conhecido como missionário R.R. Soares e Roberto Augusto Lopes. Os três que na época eram apenas membros da igreja abandonaram a denominação e fundaram com os irmãos Samuel e Fidélis a “Cruzada do Caminho Eterno”.  Dois anos depois um desentendimento pôs fim a parceria. Os três líderes, Macedo, Soares e Lopes, agora já pastores se unem para fundar no dia 9 de julho de 1977, a Igreja Universal do Reino de Deus. Mas, as divisões não parariam por aí. O primeiro a sair da “sociedade” foi R.R. Soares que se tornou o pastor principal da igreja e acabou esbarrando no estilo autoritário e centralizador de Macedo. Ele deixou a denominação antes da festa de aniversário de três anos da igreja, na qual Macedo foi consagrado a bispo. R.R. Soares saiu da igreja depois de uma votação do presbitério que apoiou a permanência de Edir Macedo. Soares foi compensado financeiramente e conseguiu fundar quase que nos mesmos moldes da Universal a própria denominação, a igreja Internacional da Graça de Deus (MARIANO,1999).
 Dez anos depois da fundação da Universal, em 1987, quem abandona a igreja e sem levar nada foi Roberto Lopes que retornou para a antiga denominação a Igreja Vida Nova. É dele um comentário forte sobre Edir Macedo. “A visão de Macedo hoje é só empresarial e mercantilista. Do que ele era, quando a igreja começou, não sobrou nada” (MARIANO, 1999, p56)
Com a saída de Roberto Lopes, Macedo teve então a liberdade para comandar a igreja como queria e conseguiu um crescimento meteórico na década de 1980.  De 1982 a 1988 pulou de 21 templos para 437. Em 1982 estava em 8 estados. Em 1988, em 21 mais o Distrito Federal e no exterior contava com 3 templos nos Estados Unidos e 1 no Uruguai. Em abril de 1989 chegaria a 571 templos e negociaria a compra da Rede Record de Rádio e Televisão.[6] Dez anos depois a igreja já possuía 700 templos e nas capitais catedrais modernas e luxuosas. E lógico, muitos templos, muitos fiéis (MARIANO,1999).
Atualmente, a igreja utilizando a Rede Record volta a protagonizar uma guerra contra a Rede Globo, já que na década de 1990, as duas emissoras usaram espaços na programação para ataques religiosos, políticos e econômicos. O crescimento da emissora de Macedo incomoda a família Marinho. Nos últimos anos, a Record renovou a programação, investiu em novelas, programas esportivos, jornalísticos e de auditório e para isso buscou na emissora rival os melhores profissionais pagando a peso de ouro inflacionando, o mercado de trabalho. A emissora evangélica se é que assim pode ser classificada, a Rede Record, nas mãos de Macedo, continuou como antes. Uma empresa que visa lucro comercial.
Na década de 1990, a Universal conseguiu a proeza de ficar em evidência na mídia em polêmicos episódios envolvendo a Globo e também a igreja Católica. Em 1995, a Globo colocaria no ar uma minissérie de Dias Gomes contando a história de um pastor pentecostal corrupto, mulherengo e rico, graças aos dízimos e ofertas dos fiéis, que por sua vez eram ridicularizados. Usando a Record e a Folha Universal, um dos jornais da igreja, a IURD começou a atacar a emissora global e também a igreja católica, que segundo a direção da Universal, teria sido a responsável por encomendar aos Marinho, donos da Globo, a minissérie no intuito de desmoralizar os evangélicos, taxá-los de fanáticos e de exploradores.  A Universal deu o troco e exibiu o filme canadense “Os meninos de São Vicente”, baseado em fatos reais com histórias de padres homossexuais abusando e oprimindo crianças. A rixa sobre a minissérie ainda nem tinha esfriado quando acontece o episódio conhecido como o “chute na santa”. Foi no dia 12 de outubro, os católicos celebravam o dia da padroeira, Nossa Senhora Aparecida, e logo pela manhã, o bispo da Universal Sérgio Von Helde num programa matutino na Rede Record tocava o objeto de forma agressiva e o ridicularizava. Resultado dessa atitude agressiva contra a cultura do catolicismo foi uma condenação de dois anos e meio de cadeia para Von Helde e um pronunciamento de Macedo pedindo desculpas classificando a agressão de impensada, insensata, inconseqüente e desastrosa. Pouco mais de um ano depois, a Universal voltou a ser pauta dos jornalistas da Globo quando o ex-dirigente da igreja Carlos Magno de Miranda resolveu  trazer à tona as velhas denúncias e divulgou um vídeo feito com o bispo Macedo cinco anos antes. No vídeo, transmitido à exaustão pela Rede Globo, os bispos apareciam em situações constrangedoras. Macedo ajoelhado e rindo para a câmera enquanto contava dinheiro de coleta. E em outra parte das imagens, Macedo aparecia com a cúpula da igreja, durante o intervalo de uma partida de futebol ensinando os bispos a arrecadar dízimos e ofertas nos cultos. “Em todos esses episódios, o que estava em disputa era sempre o poder: poder econômico, poder político e poder religioso” (MARIANO,1999, p 81).

UMA LEITURA DOS PROGRAMAS EVANGÉLICOS TELEVISIVOS

Nota-se que independentemente das denominações, sejam pentecostais ou neopentecostais, os temas das pregações televisivas são praticamente os mesmas e voltados para a cura, exorcismo e prosperidade. No quesito exorcismo a Universal é a que mais “briga com o diabo”. Essas igrejas também usam praticamente o mesmo método para obter recursos financeiros e assim ter verbas para financiar os próprios programas. Convocam os telespectadores para serem patrocinadores, associados, parceiros ou mesmo ofertantes. O número de uma conta de banco sempre é colocado no rodapé do vídeo.  Nessas igrejas eletrônicas pessoas da classe “C” ganham espaço.  Os produtores selecionam os testemunhos e lógico, dão privilégio para os casos de milagres mais “escabrosos, dramáticos e apelativos” (MARIANO, 1999 p.235). O que muda é a forma de evangelizar que varia de acordo com a denominação. Os pentecostais como os assembleianos, valorizam o louvor, a pregação de seus pastores renomados e esses seguem uma mesma linha: gritam e pulam no púlpito.
Nas emissoras de propriedade dos neopetencostais, com exceção da Rede Record da IURD, a música ocupa uma boa parte da programação. Observa-se que na Rede Gospel da Igreja Renascer em Cristo tem programas musicais como o Clip Gospel onde desfilam um grande número de bandas e cantores incluindo internacionais. Os estilos são os mais variados: rock, rap e funk. Um outro programa da emissora é o “Espaço Renascer”, apresentado pelo apóstolo Estevan Hernandes ou algum bispo da igreja. No programa tem pregação da palavra, falas ao vivo com telespectadores e divulgação de músicas. Há sorteio de cds e dvds para os telespectadores. Uma forma de propagar ainda mais o trabalho dos cantores e também elevar o nome da Renascer. A bispa Sônia Hernandes apresenta o próprio programa. O “De bem com a vida”, onde também tem pregação da palavra e ainda são apresentados testemunhos de conversão, curas, prosperidade e restauração de relacionamentos conjugais. Na emissora, cultos gravados na sede nas igrejas são exibidos no decorrer da programação.
Por ser dona de uma rede comercial, a Universal é a igreja que tem o maior espaço neste tipo de mídia para divulgar a sua doutrina. Seus pastores ficam ao vivo durante toda a madrugada de segunda a segunda, mas não há pregação do evangelho e nem priorização de louvores. Eles atendem os telespectadores e dão conselhos. O principal: visite uma igreja Universal e “Pare de Sofrer”. (Observa-se que os cultos de exorcismo realizados “na terça-feira do descarrego” foram cortados da programação. Mas, continuam os depoimentos das pessoas “libertas do diabo ou do encosto” como gostam de enfatizar os pastores.)  Há ainda testemunhos de vitórias de bênçãos recebidas por fiéis que participam de campanhas para arrecadação de ofertas como a Fogueira Santa de Israel.


A bíblia tem mais de 640 vezes escrita a palavra oferta. Oferta é uma expressão de fé. Se Deus não honrar o que falou há três ou quatro mil anos atrás, eu é que vou ficar mal. (Edir Macedo em entrevista ao Globo citado por Mariano, 1999, p. 165).



Em janeiro de 1998, Edir Macedo retirou do ar programas evangelísticos como o Gospel Line e o Santo Culto em Seu Lar que era exibido nas manhãs de domingo. Macedo explicou o porquê numa entrevista a Veja no ano de 1990.


Sou contra a igreja eletrônica do tipo das existentes nos Estados Unidos, em que o pastor fica no vídeo e as pessoas o assistem em casa, distraindo-se com a campainha da porta que toca ou com o gato que mia. Na minha igreja, preferimos o contato direto com o povo. Divulgaremos o Evangelho na TV Record, mas em programas na abertura e no encerramento da programação. (Edir Macedo em entrevista à Veja citado por Mariano, 1999, p.47 )


Macedo parece pensar completamente diferente do cunhado R.R. Soares, fundador da Igreja Internacional da Graça de Deus. Isto porque, o que acontece na programação da RIT - Rede Internacional de Televisão, como já citado aqui anteriormente, emissora de propriedade da igreja da Graça de Deus, o que se vê é o oposto. Há exibição de pregações bíblicas em diferentes horários do dia, também de segunda a segunda. São os cultos que acontecem na sede da Igreja em São Paulo ou em outras igrejas da Graça em outras regiões do país e do mundo. Alguns vão ao ar ao vivo. A igreja também investe em muita música gospel, tem seus próprios músicos como a Renascer e seus intervalos são voltados praticamente para divulgação de cds, dvds e livros de produtos e editoras próprias. E vale registrar aqui o fato de que o missionário R.R. Soares conseguiu um feito histórico: foi o primeiro a conseguir espaço em horário nobre numa rede nacional. “O Show da Fé” é exibido às 21h, de segunda a sábado na rede Bandeirantes para todo o Brasil. O programa segue o discurso religioso da maioria dos programas evangélicos do país e retrata uma nova faceta. A ênfase na mensagem transmitida não é mais na igreja, nem na adesão a ela, mas no cultivo de uma religiosidade, intimista, autônoma e individualizada.  Isso ocorre devido aos evangélicos serem agora um segmento, um mercado em expansão e se no passado havia convites à conversão e na divulgação da denominação religiosa, no presente, a programação dos rádios FM, os programas televisivos, a literatura disponível e até nas páginas religiosas na Internet são voltados praticamente para um público já vinculado a uma igreja ou denominação (CUNHA, 2007).
            Mas essas duas igrejas, IURD e Igreja Internacional da Graça de Deus têm semelhanças no modo de evangelizar. Seus pastores distribuem aos fiéis objetos ungidos dotados de poderes mágicos e miraculosos, ato que mais uma vez as aproxima de crenças e práticas dos cultos afro-brasileiros e do catolicismo popular. Enquanto, a igreja da Graça utiliza-se de flores, sabonetes, travesseiros e cartas, a Universal já usa objetos como galhos de arruda, balas(em dias de São Cosme e Damião),  água benta e sal. Enquanto a igreja da Graça, investe 44,2% da sua teleevangelização em pregações, 28,7% em convites e 6,9% em testemunhos de fiéis, a Universal só em testemunhos de telespectadores que alcançaram vitórias preenche 60%. do programa “O Despertar da Fé” (MARIANO, 1999).   
            A forma de entender o poder de comunicação desses líderes religiosos na mídia é sugerido por Hall(2003).  Para quem, a instituição ao emitir a mensagem pela mídia codifica os sentidos da informação, para uma compreensão mais fácil do receptor ao decodificar a mensagem. Dessa maneira a comunicação é estabelecida entre os pares, aqueles que comungam com as mensagens evangélicas. É esse conjunto de significados decodificados que exerce influencia, entretém, instrui ou persuade, com conseqüências perceptivas, cognitivas, emocionais, ideológicas ou comportamentais muito complexas. (HALL 2003)
O autor vai além ao explicar os métodos de codificação utilizados pelos media. Hall(2003) reitera que não há somente uma preocupação com a mensagem, mas também com os meios técnicos e a difusão. Além dos referenciais de conhecimento citados acima, o autor destaca as relações de produção para emitir a mensagem. Assim como, o aparato técnico utilizado pelas empresas de comunicação.


CONSIDERAÇÕES FINAIS

            No presente artigo, investigamos as características das principais igrejas evangélicas que ocupam espaço na mídia brasileira. Por meio de uma pesquisa teórica traçamos um paralelo entre os programas que seguem a linha cristã e estão presentes na televisão brasileira desde a sua implantação. Constatamos que ao longo dos anos, várias foram as modificações. De programas sérios e semelhantes aos apresentados nos Estados Unidos, que chegaram a ser exibido aqui no Brasil, o que se vê hoje, são programas evangelísticos modernos, parecidos com os transmitidos pelo meio secular. Uma programação que envolve pregações e shows de música gospel. Observou-se ainda a predominância dos neopetencostais na mídia. Igrejas fundadas por evangélicos que saíram das denominações pentecostais. Líderes que abandonaram os usos e costumes das igrejas que pertenceram e criaram um novo jeito de ser crente. Um crente “mundanizado”, como o caso dos evangélicos da Universal do Reino de Deus e da Igreja Renascer em Cristo. Esta influência da mídia sobre as religiões foi exaustivamente debatida em nosso trabalho. A igreja que extrapola os templos e invade a casa das pessoas por meio das emissoras de televisão. Esse formato é algo que está em franca ascensão em nossos meios de comunicação.  

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


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__________ O que é religião. São Paulo: Abril cultural:Brasiliense,1984b.

__________ Dogmatismo e tolerância. São Paulo: Paulinas, 1982.

CUNHA, Magali do Nascimento. A explosão gospel: um olhar das ciências humanas sobre o cenário evangélico no Brasil. Rio de Janeiro: Mauad, 2007.

GÓMEZ, Guilherme Orozco. O telespectador frente à televisão. Uma exploração do processo de recepção televisiva. México: Universidade de Guadalajara, 2005.

PEREIRA JÚNIOR, Luiz Costa. A vida com a TV. O poder da televisão no cotidiano. 2º ed. São Paulo: Senac, 2002.

SANTANA, Luther King de Andrade. Religião e Mercado: A mídia Empresarial-Religiosa. Revista de Estudos da Religião. Número 1/ 2005 pp. 54-67. 

HALL, Stuart. Da Diáspora Identidades e Mediações Culturais. Ed. UFMG. Belo Horizonte, 2003.

KELNER, Douglas. A cultura da mídia: Estudos culturais, identidade e política entre o moderno e o pós-moderno. Bauru: EDUSC, 2001

MAFRA, Clara. Os evangélicos. Rio de Janeiro. Jorge Zahar, 2001.

MARIANO, Ricardo. Neopentecostais. Sociologia do novo pentecostalismo no Brasil. São Paulo: Loyola,1999

MENDONÇA, Antônio Gouvêa. Protestantes, pentecostais e ecumênicos. São Bernardo do Campo, Umesp, 1997.

MORIN, Edgar. Cultura de Massas no século XX. 3º ed. Rio de Janeiro: Forense, 2001.


ABSTRACT:

This article intends to show by means of theoretical work of several authors as are produced gospel programming on Brazilian television. To this end, we analyze the characteristics of the major names in the media today. Evangelical churches are like this: evangelistic in nature and therefore, its leaders saw in the media a way to spread their doctrines in order quickly and efficiently. Studying this subject will bring benefits in the area of scientific research where it is inserted, in view of the importance of understanding how this human relationship media and religion.

Key-words: Evangelicals; television; features



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